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domingo, 9 de março de 2025

Por vezes, em vez da pergunta, o que faz falta é deixar fluir a magia

A propósito de um relato de Manuela Castro Neves em «Vida na escola»
Daniel Lousada

«Gosto muito da palavra espanto», escrevi há tempos com o Luís [*]Prefiro-a à palavra "motivação", que faz lembrar coisa de auto-ajuda. O espanto prende-nos os sentidos, interpela-nos e, por vezes, convida-nos à pergunta. Mas quando não convida...

O relato que trago aqui, registado numa das muitas histórias que a Manuela Castro Neves conta em “Da vida na escola”[**], que reproduzimos abaixo, contém a descrição de um "espanto", que só interpelou a Manuela, e nos faz pensar que nem sempre é útil a pergunta, mais ainda, quando ninguém quer saber da resposta… e o que é preciso é prolongar a magia. Para os seus alunos "flor candeeiro" só é candeeiro porque dá luz. Não fazem sentido perguntas. É uma das muitas magias com que a natureza nos brinda. Não sendo assim, seria flor, certamente, mas candeeiro não! Não há nada que espantar. E a Manuela deu conta disso, a tempo (Confesso que não sei se eu teria conseguido evitar a insistência na pergunta!). Não sendo acompanha por outras crianças, no seu "espanto", para que pudesse surgir como mediadora, o confronto seria, apenas, entre o ponto de vista da professora e o ponto de vista da criança, donde o que se dava era um confronto de poderes, do qual a criança sairia, naturalmente, a perder.

 «O espanto “descreve a forte impressão originada por uma coisa inesperada e repentina” — diz Tolentino Mendonça —. “Prende a nossa atenção à maneira de um relâmpago”. Na tradução que faz de Adorno “é um longo e inocente olhar sobre um objecto”. É um olhar inocente porque a claridade repentina, que ilumina o objecto e faz virar a cabeça, faz com que o olhemos nas condições que o objecto marca» [***]. Ora, nem sempre, estas condições nos amarram a uma pergunta. E, quando não amarram, não faz falta fazê-la. Podemos estar perante, talvez, um espanto que a magia nos provoca! E, para o que é mágico, diria que a pergunta só atrapalha, mesmo! Daqui a importância de, por vezes, resistir à pergunta que o espanto nos traz, e de nos abstermos de a impor ao outro. Porque há o tempo da infância em que a magia impera e que vamos prolongando, aqui e ali, à medida que a idade avança... Não faz falta que apressemos, nas crianças, as "certezas" da idade adulta.

A professora também se espanta e é legitimo que faça perguntas. Mas se as crianças não se espantam, nem vão atrás do espanto da professora, fazendo suas as suas perguntas, ocupemo-nos, apenas (e este apenas não é coisa pouca, bem pelo contrário), em deixar fluir a magia numa história, eventualmente, deixando a ciência para outros temas. Até porque nos queixamos, tantas vezes, que as nossas crianças não têm imaginação. Cuidemos, então, da atenção que nos merecem os lugares onde a imaginação pode ser encontrada.

[*] Daniel Lousada e Luis Goucha, «O Professor de Espantos — Em vez de motivar espantar», Ágora Gaia >>>
[**] Edições ASA, Porto, 2006: pp. 14-16
[***]“O professor de espantos”, acima citado

«Carlinhos ou o tempo em que as flores dão luz»
Uma história de Manuela Castro Neves

Chama-se Carlinhos e é o mais novo de uma família de sete irmãos.

Possui uns olhos brilhantes muito claros e uma franjinha loira mal aparada no meio da testa pequena. Embora magro, tem assim uma barriga redonda, muito grande, que as camisolas herdadas nunca vestem completamente.

Não sei porquê, todos os dias chega atrasado à escola. Encontra-nos sempre já em roda, as últimas novidades contadas, a programação do dia já feita.

Ao vê-lo entrar, mochila às costas, passo miúdo nas calças apertadas, enterneço-me logo e pergunto a mim própria que carrinho de bebé o terá transportado até ali ou de que colo quente ou mãos fofas terá justamente acabado de sair. Mas faço uma cara feia e digo sempre qualquer coisa em tom meio zangado: "Então, Carlinhos, Isto pode continuar assim? O que é que te aconteceu hoje?" Ele põe os olhos em baixo, encolhe os ombros, responde em monossílabos roucos e senta-se com todo o ar de quem não tenta sequer apanhar o fio da meada que a essa hora nos envolve a todos.

Hoje, como de costume, já estava combinado o que iríamos fazer ao longo do dia e o Paulo acabava de contar uma aventura, quando a porta se abriu e, corado, surgiu o Carlinhos. Aproximou-se de nós, lentamente, com uma certa solenidade no andar. Reparei! então que trazia, na mão, um ramo de flores. Eram umas flores roxas, vulgarmente chamadas campainhas, e que fazem lembrar as candeias de azeite que antigamente se suspendiam nas paredes.

Pousou a mala, foi buscar a cadeira e sentou-se junto de nós com o raminho. Não olhava para outra coisa. Estava tão calado, como, apesar de tudo, eu nunca o vira. Para o fazer falar, ao fim de algum tempo, perguntei-lhe: "Que é que trazes aí hoje?". E ele, com um sorriso meio envergonhado, meio misterioso, respondeu: "São candeeiros". Fez uma pausa e depois acrescentou: "Dão luz".

Eu andava há duas semanas sem encontrar motivo para o estudo do Meio Físico e o meu coração sobressaltou-se. Desta vez, achara um belo filão. Imaginei rapidamente uma quantidade de coisas que poderia fazer: levar as crianças a observarem as flores, a abrirem-nas, a verem a seiva que lá por dentro lhes corria, a tirarem conclusões. Esperei, por parte de qualquer criança, uma reacção que me facilitasse o caminho. Como ninguém dissesse nada, avancei eu: "Mas será que dão luz mesmo?»

O Carlinhos ganhou então o ar de quem ficara espantadíssimo com a pergunta e respondeu:

— Mesmo agora quando as apanhei estavam acesas.

Eu, cheia de esperança, continuei:
— Mas não era o sol a bater nelas?

E ele, firme:
— Não. Era luz mesmo que vinha de dentro. E era um bocado forte. É por aqui — e apontava para os estames — que a luz sai. Por isso é que se chamam candeeiros.

Olhei as caras dos outros. Nem sinais de riso nem de espanto. Alguns apoiavam até o Carlinhos com um "pois é, ao pé da minha casa também há".

la tentar começar uma explicação qualquer, mas entretanto o Carlinhos já se tinha levantado e, solenemente, como um anjo loiro de cara suja, distribuía uma a uma as flores do seu ramo pelos melhores amigos. Tinha nas mãos, garanto, toda a sabedoria e toda a delicadeza de quem toca nas estrelas. Em volta, havia um silêncio enorme. O silêncio das grandes ocasiões... Olhei-o durante uns minutos. Sentia-me tão atrapalhada, como se alguém de outro planeta me tivesse visitado de súbito.

Depois disse para mim própria: "Devo ser uma professora muito má, mas prefiro deixar cair esta oportunidade". E continuei calada.

De "candeeiro" na mão, cheios de dignidade, o Carlinhos e os amigos lá ficaram naquele reino tão longínquo onde pássaros emigrantes transportam meninos nos bicos ou nas asas e onde as flores, em tufos pelos campos, iluminam os caminhos.

sexta-feira, 12 de abril de 2024

Se ele não sabe porque é que explicas? *



A propósito da uma história de Manuela Castro Neves

Não é possível explicar a quem não quer saber de explicações. E só não quer saber de explicações, quem se sente a léguas do assunto da explicação.

Explicar é fazer com que o outro entenda o que temos a dizer. Mas para que isto aconteça precisamos saber o que ele sabe do que queremos que saiba. E só chegamos a esse saber pela conversa. Uma conversa só possível, tantas vezes, se tivermos a capacidade de ler os sinais que ele nos passa: a perplexidade que vemos no seu olhar e nos interroga,  que pode ser o início do diálogo que leva à explicação; ou aquele desafio que nos diz que não está nem aí e nos "convida" a seguir outro caminho, algo idêntico ao relatado em “Matemática, só matemática", uma das trinta e quatro pequeníssimas histórias que a Manuela nos conta no seu livro "Caderno A4", e que reproduzimos abaixo [as restantes só podem ser lidas no livro], num enredo que nos convida a reflectir sobre o caminho das explicações que damos: negociação ou confronto.

A Manuela diz que não dá explicações, mas explica! Explica no diálogo que o outro aceita ter com ela. Só não traz a explicação à cabeça.

Daniel Lousada


Esta é uma história que começa mesmo muito mal e acaba bem. Por isso, e porque ela me levou à descoberta de um novo caminho, gosto de a contar. 

O Tomás tinha sete anos, frequentava o segundo ano de es­cola­ridade e, de acordo com a professora e com a psicóloga que o obser­vou, precisava de um apoio acrescido fora do horário le­tivo. Era ótimo aluno a matemática – diziam mesmo que o me­lhor da turma, – mas havia nele um bloqueio enorme em relação à leitura e à es­crita. Foi por isso que a mãe mo trouxe em certo fim de tarde.

Antes que ela tocasse à campainha, já eu ouvia os gritos do me­nino na rua: “Não! Não! Não!” Não queria vir. Não lhe inte­res­sava aprender a ler. Só lhe interessava a matemática. E já à porta, batia deses­peradamente com a cabeça nas paredes. Não ia fi­car. A mãe, atrapalhadíssima, gritava também. Que ele ficava, sim, que era ela quem mandava. E eu, ali, sem saber como inter­vir e previamente assustada com o que me esperava. A certa altura, disse à se­nhora que seria melhor levá-lo para casa, con­versar com ele e trazê-lo nou­tro dia, quando ele estivesse con­vencido de que o apoio lhe seria útil. Ela respon­deu que, se o levasse, lhe iria dar uma tareia, pois estava exausta e furiosa, farta de tanta birra. E que me pedia enca­recidamente o grande favor de ficar com o menino durante um bo­cado, enquanto ela ia dar uma volta para se acalmar. Por favor, por favor. Não tive co­ragem de recusar, roguei a todos os san­tos e peda­gogos que me ajudassem. E os santos, ouvindo a minha prece, se­gredaram-me ao ouvido: Ma­temática, matemática! 

Então, com o menino virado para a parede, disse-lhe: “Vá! Vamos trabalhar matemática!”

Limpou as lágrimas, deixou escapar um último soluço, ace­nou afirmativamente com a cabeça e su­biu a escada comigo. Sen­támo-nos, pus na sua frente um caderno quadriculado e, sem perder tempo, perguntei-lhe: “Então, da matemática, o que é que vamos fazer agora? ”Resposta imediata: “Contar até dez mil.”

Dez mil? Mas não vais conseguir chegar lá hoje.” 

Com o à-vontade de quem percebe do assunto, respondeu: “Pois não, mas não faz mal. Continu­amos nos outros dias.” 

Pronto. Estava garantido que iria voltar sem birra. Tinha um obje­tivo nobre: o de chegar a dez mil.

Respirei fundo, enquanto ele começou a grande velocidade: 1, 2, 3, 4, 5... Quando ia perto do 100, sugeri que contasse de 2 em 2.

“Claro! Chego mais depressa.” E continuou, cheio de energia. Já ia em 519 quando a cam­pa­inha soou. Era a mãe. Acabara a volta calmamente e vinha buscá-lo. Expli­quei ao Tomás que, antes de sair, tinha de registar no ca­derno a frase: “ficámos em 519”. Respondeu que não era preciso. Ele fixava os nú­meros muito bem e, da próxima vez, re­começaria no 520. Insisti. Que esta contagem ia ter muitas eta­pas e nós ía­mos gostar de as recordar mais tarde. Por isso, era bom que fi­cassem registadas, que a frase que eu estava a propor era muito fácil.

“Para mim não!”, afirmou.

Não era?! Então um menino tão inteligente, capaz de contar até dez mil, não conseguia escrever uma coisa tão simples?! En­cheu-se de brio: “Fi... é um f e um ?”

“Sim, claro. E ?”

“Um c e um a.”

Escreveu “fica” e acrescentou: mos é que eu não sei mesmo.”

“Escreve mo. Eu completo.” Escreveu mu. Eu juntei o s e a palavra em. Todo contente, ele escreveu à frente: 519. Tínhamos assim o primeiro registo: “ficamus em 519”. De­pois, foi com um grande sorriso nos lábios que chegou ao pé da mãe. A se­nhora, aliviada, não cessava de me agradecer.

“É à matemática que deve agradecer, não a mim.”

Grande final de tarde! A guerra não estava provavelmente ga­nha, mas esta por mim tão temida primeira batalha, sim. Respirei, também eu, aliviada.

Quando o Tomás voltou, três dias depois, ainda a subir as es­cadas, começou: 520, 522... Fi-lo parar. Primeiro devia ler a frase que tinha escrito no caderno. Refilou um bocado, mas leu. De­pois, continuou a contagem. Era ótimo que estivéssemos a entender-nos e eu sentia-me muito alegre com isso. Mas devo confessar que ter na minha frente um menino a olhar para a parede e a contar de seguida era, no mínimo, monocórdico e aborrecido. Lembrei-me então de lhe sugerir uma divisão do tempo: metade para a tão amada contagem, a outra metade para “contas com letras”.

“Contas com letras? Isso existe?”

“Sim, com sinais de – de + e de =. Queres ver?” Escrevi: Bola – b + c =

Achou muita graça, resolveu esta conta e muitas mais. Cola, rola, sola, mola, tola, gola foram, ao fim de algum tempo os re­sultados das primeiras contas com letras que lhe passei. Outras de maior complexidade haviam de ter lugar em futuros encon­tros. No final deste, lembrei-o de que tinha de fazer o novo re­gisto da contagem. Preparava-se para copiar a frase do dia ante­rior, substituindo o 519 pelo número a que chegara, mas eu ex­pliquei-lhe que, se na contagem ele chegava cada vez mais longe, a frase também tinha de o levar um pouco mais longe na apren­dizagem. Contrariado e com a minha ajuda, escreveu: “No dia 10/11, ficamos em 987.”

O caminho estava descoberto.

A escrita da frase, progressivamente aumentada, conduzia-o à análise das palavras, à descoberta de alguns sons, à consolida­ção de outros. Constituía-se, pois, como um bom momento de aprendizagem da leitura. Tornava-se, no entanto, necessário que a linguagem escrita fosse ganhando terreno e assumisse um ca­ráter mais sistemático no nosso tempo de encontro.

E assim aconteceu. A contagem não foi abandonada, mas, com intervalos maiores entre os números (de 5 em 5, de 10 em 10), passou para segundo plano. Assim, só depois das férias de Natal, com grande alegria, chegou à meta dos dez mil. Também foi com grande alegria que chegou ao final do ano letivo a ler com fluência e gosto.

Se eu tivesse feito braço de ferro com o menino e declarasse que a matemática não era para ali chamada, teria esta história acabado bem? Creio que não. É minha convicção que, sem nunca deixar de ter bem presente o objetivo principal, a negociação com as crianças é a via que melhor as predispõe para a aprendi­zagem.

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* Paráfrase de uma expressão de João dos Santos, que dá título ao livro, "Se não sabe porque é que pergunta? - conversas com João Sousa Monteiro", Lisboa, Assírio & Alvim, 2004