quarta-feira, 9 de setembro de 2026

"Ler como um escritor" — Aprender a escrever com um poema de Fernando Pessoa

No “Diário de Turma”, na coluna destinada às novidades do dia, podia ler-se:

Ontem fui com o meu amigo Helder comprar toucinho fumado, que a mãe pediu. Corremos de bicicleta para chegarmos mais depressa. Um cão atravessou a estrada e as bicicletas embrulharam-se e nós caímos no chão. O meu chapéu voou pelo ar e parti o relógio. Por sorte só esfolámos as mãos e os joelhos

André

*

Diz-se que para escrever bem é preciso ler muito. Sim. Ler muito importa, mas por si só não basta. Há tanta gente que lê em quantidade tal, que eu nunca conseguirei ler na vida, e que faz um esforço enorme para escrever uma linha! Porque a leitura que importa tem de vir amarrada à escrita — «ler como um escritor»[i], lembram-se? É esta leitura que quem quer ensinar a escrever, também precisa de ensinar o escrevente aprendiz a fazer.

Ao ler a novidade do André, chegou-me de imediato ao ouvido o poema “Levava eu um jarrinho”, de Fernando Pessoa, na voz de Manuela de Freitas [Figura 1 — ler/ouvir], e achei que, talvez, não fosse má ideia juntar a novidade do André e o poema do Pessoa num mesmo trabalho de texto.

FIGURA 1

Comecei pela apresentação do poema acompanhado pela voz de Manuela de Freitas. O uso de “para” e “p’ra” mereceu de um dos miúdos um reparo a pedir explicação — para não nos deixarmos perder em mudanças de assunto, “sugeri” deixar o tratamento deste tema para o fim do trabalho de texto
[ii].

De seguida convidei o André a ler a sua novidade. Colocados lado a lado (poema e novidade), propus que trouxéssemos para o texto do André a forma de escrita do poema de Fernando Pessoa. Começamos, então, por procurar uma forma de encaixar um no outro:

FIGURA 2

Antes de avançarmos para a escrita da novidade, usando a fórmula do Fernando Pessoa, observei: Para contar a novidade do André, do mesmo modo que o Fernando Pessoa contou a sua história, neste poema, precisamos de ter atenção a quem leva o chapéu, a saca, e o relógio — E continuei em modo de pergunta retórica, enquanto sublinhava a primeira frase da novidade: Quem conta a novidade é o André. Certo? E quem vai comprar toucinho é o ... Helder. É ele que tem de levar a saca, não é? E quem leva o chapéu e o relógio? É o André — alguém respondeu.

E começamos a reescrita da novidade:

Levava eu um chapéu para fugir do sol,
Levava eu uma saca ...

Levava eu uma saca? — estranhei — Como assim? Quem foi comprar toucinho?

Levava o Helder uma saca para comprar toucinho

Não digo que esteja mal — disse —, mas não gosto! Ora vejam: o André, que é o narrador, diz: levava eu... Para dizer o que levava o Helder, em vez de dizer eu, tem de dizer... Levava ele..., levavas tu... Então...

FIGURA 3

Terminado o trabalho de texto, decidimos que o produto a fazer seria uma montagem da narração da história, gravada pelos miúdos, com a ilustração das diferentes cenas, num vídeo [ver/ouvir >>>]. 

Realizada a gravação, ouvimos para ver se tinha ficado do nosso agrado[iii]. Foi nesta altura que avancei com a explicação sobre o uso de “para” e “p’ra”, que tinha prometido. Para ajudar na explicação, ouvimos novamente a gravação, para dar conta do modo como esta palavra era pronunciada. Verificamos que, apenas no 6º verso, foi pronunciada com as suas duas sílabas bem marcadas [Figura 3], e demos conta do ritmo e da sonoridade que uma e outra pronúncia imprimiam aos versos. 

Claro que o modo como pronunciaram esta preposição não foi fruto de uma escolha — apenas aconteceu assim. Mas quando perguntei: se pudessem escolher mudavam a pronúncia desta palavra nalgum dos versos?, ficaram divididos quanto ao que fazer no 8º verso![iv] 

Não sendo a métrica a razão do uso de “p’ra” em vez de “para”, a opção por esta ou aquela forma, só pode ser explicada pelo ritmo e sonoridade que queremos dar aos versos (ou a qualquer frase de qualquer texto, para chegar audível ao ouvido); uma escolha poética, portanto, para adequar a linguagem ao ritmo e tom de um poema.

*
Para saber como funciona esta ou aquela organização textual, mais do que qualquer gramática, mais do que qualquer explicação ou análise, nada melhor do que trazê-la para a nossa escrita. Não se trata de imitar um autor, de copiá-lo, mas de usar os seus textos como matriz, que nos permite aprender a escrever com ele, interrogando-o não apenas pelo que ele diz, mas perguntando: Como é que ele fez isto?[v]  É esta a leitura que importa quando se trata de aprender a escrever com ela.

Daniel Lousada com Dulce Barreiros

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[i] Tese defendida por Francine Prose: in Ler como um escritor. Cruz Quebrada, Casa das Letras, 2007.
[ii] Sugerir é uma forma de dizer, já que o modo como dei a sugestão não deu espaço a alternativa: A observação do Bruno é muito interessante — disse —. Mas para que a gente não se perca, vamos procurar saber porque é que o Fernando Pessoa escreveu “p’ra” em vez de “para”, quando acabarmos este trabalho. Está bem? — Claro que nestes termos, só podia estar bem!
[iii] Para que todos se sentissem representados fizemos uma gravação que combina, narração a solo com narração em coro.
[iv] Neste verso, dito em coro, é possível detectar vozes que dizem “para” e vozes que dizem “p’ra”.
[v] Lembram-se — ressalvando as devidas distâncias — da matriz que os funcionários das repartições públicas nos colocavam à frente, quando tínhamos de fazer um requerimento qualquer? E das cartas que aprendíamos a escrever na escola? Será que ainda se ensina a escrever cartas?

quarta-feira, 8 de julho de 2026

De "Céu de Chocolate" a Cacau quentinho

Do áudio livro Histórias de chocolate, de José Jorge Letria, recriámos o “Céu de Chocolate”.

OUVIR
«
Era uma vez um país distante e quase desconhecido, que tinha um céu de chocolate. O céu era muito espesso e muito doce e representava um problema para os habitantes desse país, porque não os deixava ver o sol, a lua e as estrelas no pano escuro e luminoso das noites As pessoas gostavam muito da doçura do céu de chocolate mas viviam tristes e cabisbaixas, por terem aquela imensa massa castanha sempre por cima das suas cabeças.
Dando-se conta da tristeza dos habitantes, de quem gostava, o céu pediu ao sol para enviar os seus raios fortes e, vendo esse pedido satisfeito, o chocolate começou a derreter-se lentamente!
Sobre as cabeças daqueles que, tristes e desiludidos, já pensavam em partir de vez, começaram a cair pequenos pedaços de chocolate ao mesmo tempo que, lá no alto, se avistava já o rosto radioso do sol.
E foi assim que nasceram os bombons».

Ouvida a história, na voz do seu autor, optámos por uma abordagem mais tradicional: identificámos as personagens, o problema que a história descreve e a solução encontrada, para, de seguida, passarmos à escolha do que iríamos alterar.

Num mundo de conto de fadas não é preciso explicar a razão de tudo; podemos sempre dizer que aquilo é assim porque a “fada” quis assim: é magia. Daqui apreciarmos este tipo de propostas de escrita, quando se trata de ensinar a escrever em fases de iniciação, pela possibilidade que dá de sair rapidamente do impasse em que por vezes o texto cai: quando o enredo corre o risco de se arrastar, podemos sempre convocar a personagem mágica, que traz o fim, sem serem necessárias grandes explicações.

Então, inseridos na lógica da história, sem mais explicações, decidimos que o céu de chocolate deixaria de ser céu, para passar a ser nuvens de cacau, que não deixam ver o céu azul, mantendo, no essencial, o enredo da história. E o Céu de chocolate virou Nuvens de Cacau, que caiu quentinho nas ruas, nos telhados das casas...