No “Diário de Turma”, na coluna destinada às novidades do dia, podia ler-se:
Ontem fui com o meu amigo Helder comprar toucinho fumado, que a mãe pediu. Corremos de bicicleta para chegarmos mais depressa. Um cão atravessou a estrada e as bicicletas embrulharam-se e nós caímos no chão. O meu chapéu voou pelo ar e parti o relógio. Por sorte só esfolámos as mãos e os joelhos
André
*
Diz-se que para escrever bem é preciso ler muito. Sim. Ler muito importa, mas por si só não basta. Há tanta gente que lê em quantidade tal, que eu nunca conseguirei ler na vida, e que faz um esforço enorme para escrever uma linha! Porque a leitura que importa tem de vir amarrada à escrita — «ler como um escritor»[i], lembram-se? É esta leitura que quem quer ensinar a escrever, também precisa de ensinar o escrevente aprendiz a fazer.
Ao ler a novidade do André, chegou-me de imediato ao ouvido o poema “Levava eu um jarrinho”, de Fernando Pessoa, na voz de Manuela de Freitas [Figura 1 — ler/ouvir], e achei que, talvez, não fosse má ideia juntar a novidade do André e o poema do Pessoa num mesmo trabalho de texto.
De seguida convidei o André a ler a sua novidade. Colocados lado a lado (poema e novidade), propus que trouxéssemos para o texto do André a forma de escrita do poema de Fernando Pessoa. Começamos, então, por procurar uma forma de encaixar um no outro:
E começamos a reescrita da novidade:
Levava eu um chapéu para fugir do sol,
Levava eu uma saca ...
Levava eu uma saca? — estranhei — Como assim? Quem foi comprar toucinho?
Levava o Helder uma saca para comprar toucinho
Não digo que esteja mal — disse —, mas não gosto! Ora vejam: o André, que é o narrador, diz: levava eu... Para dizer o que levava o Helder, em vez de dizer eu, tem de dizer... levavas tu... Então...
Realizada a gravação, ouvimos para ver se tinha ficado do nosso agrado[iii]. Foi nesta altura que avancei com a explicação sobre o uso de “para” e “p’ra”, que tinha prometido. Para ajudar na explicação, ouvimos novamente a gravação, para dar conta do modo como esta palavra era pronunciada. Verificamos que, apenas no 6º verso, foi pronunciada com as suas duas sílabas bem marcadas [Figura 3], e demos conta do ritmo e da sonoridade que uma e outra pronúncia imprimiam aos versos.
Claro que o modo como pronunciaram esta preposição não foi fruto de uma escolha — apenas aconteceu assim. Mas quando perguntei: se pudessem escolher mudavam a pronúncia desta palavra nalgum dos versos?, ficaram divididos quanto ao que fazer no 8º verso![iv]
Não sendo a métrica a razão do uso de “p’ra” em vez de “para”, a opção por esta ou aquela forma, só pode ser explicada pelo ritmo e sonoridade que queremos dar aos versos; uma escolha poética, portanto, para adequar a linguagem ao ritmo e tom de um poema.
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[i] Tese defendida por Francine Prose: in Ler como um escritor. Cruz Quebrada, Casa das Letras, 2007.
[ii] Sugerir é uma forma de dizer, já que o modo como dei a sugestão não deu espaço a alternativa: A observação do Bruno é muito interessante — disse —. Mas para que a gente não se perca, vamos procurar saber porque é que o Fernando Pessoa escreveu “p’ra” em vez de “para”, quando acabarmos este trabalho. Está bem? — Claro que nestes termos, só podia estar bem!
[iii] Para que todos se sentissem representados fizemos uma gravação que combina, narração a solo com narração em coro.
[iv] Neste verso, dito em coro, é possível detectar vozes que dizem “para” e vozes que dizem “p’ra”.




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